Poucas instituições financeiras brasileiras tiveram uma trajetória tão rápida — e um desfecho tão estrondoso — quanto o Banco Master. Em pouco mais de uma década, a casa saiu da condição de banco médio em dificuldades para se tornar um dos nomes mais comentados da Faria Lima e, em seguida, o centro da que é considerada por investigadores a maior fraude bancária da história do país. Entender a história do Banco Master ajuda a explicar como um banco pode crescer tão depressa, atrair bilhões em recursos do público e, em uma única manhã, ser liquidado pelo Banco Central.
Este texto reconstitui essa história em ordem cronológica, da fundação à liquidação, com base em informações do Banco Central, do Senado Federal, da Polícia Federal e da imprensa econômica. Como parte dos fatos ainda está sob investigação, as acusações são apresentadas com a devida atribuição às fontes e os envolvidos seguem amparados pela presunção de inocência.
As origens: do Banco Máxima a um banco em dificuldades
A história do Banco Master não começa com esse nome. Suas raízes estão no Banco Máxima, instituição que tem origem em uma corretora de títulos e valores mobiliários fundada nos anos 1970 e que obteve autorização do Banco Central para operar como banco a partir de 1990. Ao longo dos anos 2000, a casa se especializou em crédito, com forte presença no segmento imobiliário.
Esse foco cobrou seu preço. Em meados da década de 2010, o Banco Máxima estava fragilizado, afetado por uma crise de inadimplência em sua carteira de crédito imobiliário e por problemas de gestão. Foi nesse cenário de fragilidade que surgiu a oportunidade que mudaria tudo.

A chegada de Daniel Vorcaro (2016) e o nascimento da marca Master
Em 2016, o empresário mineiro Daniel Vorcaro — então mais conhecido pela atuação no mercado imobiliário, área da família — aproximou-se do controlador do Banco Máxima e assumiu o negócio. Vorcaro e sócios capitalizaram a instituição e implementaram uma reestruturação completa de marca, estrutura e estratégia. Por volta de 2017-2018, a casa passou a se chamar Banco Master.
A nova estratégia foi deliberadamente diferente da anterior. Em vez de concentrar-se no crédito imobiliário que havia quase quebrado o Máxima, o Banco Master diversificou o portfólio, entrando em crédito consignado, crédito pessoal, serviços financeiros, seguros e banco de investimento. Mais importante: adotou um modelo de captação agressivo, baseado na emissão de CDBs com rentabilidade muito acima da média do mercado.
A ascensão na Faria Lima e a estratégia dos CDBs
Foi essa combinação que projetou o Banco Master. Ao oferecer CDBs com retornos que, segundo reportagens, chegavam a 140% do CDI, o banco atraiu uma enorme base de investidores de varejo — muitos deles seduzidos justamente pela garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre aplicações elegíveis até R$ 250 mil por CPF. Na prática, o cliente enxergava um produto de altíssimo retorno com risco aparentemente limitado.
Com o caixa abastecido por essa captação, o Banco Master partiu para uma fase de expansão e diversificação que chamou atenção do mercado. O conglomerado adquiriu participações e empresas em setores variados; em 2024, assumiu o controle da Will Financeira e do Banco Voiter, que passaram a integrar o grupo. Vorcaro também se tornou figura conhecida do mercado de capitais e da alta sociedade, com investimentos associados a nomes como a varejista de moda Veste (dona das marcas Le Lis Blanc e Dudalina) e a empresa de biotecnologia Biomm, além de ativos imobiliários de luxo. À medida que a carteira crescia, porém, crescia também o escrutínio de analistas e reguladores sobre a qualidade desses ativos e a sustentabilidade do modelo.
O alerta dos reguladores e a tentativa de venda ao BRB (2024-2025)
Segundo a cronologia apresentada publicamente pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, os problemas do Master não surgiram de repente. A partir de 2024, mudanças na regulação e na dinâmica de mercado começaram a apertar os canais de captação do banco, e a autoridade monetária intensificou o monitoramento. No primeiro trimestre de 2025, o Banco Central já mantinha um processo administrativo sancionador contra a instituição por descumprimento de recolhimento compulsório.
Foi nesse contexto que, em 28 de março de 2025, o BRB (Banco de Brasília), instituição pública controlada pelo Governo do Distrito Federal, anunciou um acordo para adquirir participação no Banco Master, em operação estimada em torno de R$ 2 bilhões. O negócio, aprovado pelo conselho do BRB, previa a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais, com a manutenção de Vorcaro como controlador. A operação chegou a ser aprovada sem restrições pelo Cade, sob a ótica concorrencial.
O Banco Central, no entanto, indeferiu o pedido em 3 de setembro de 2025. Posteriormente, investigadores passaram a sustentar que a venda a um banco público poderia, na prática, fundir balanços e diluir um eventual rombo — leitura que a operação, segundo as autoridades, ajudaria a mascarar. Em paralelo, desde abril de 2025 o FGC já vinha cobrindo, por meio de uma linha emergencial, CDBs vencidos do banco, sinal de que a crise de liquidez avançava.
A liquidação: 18 de novembro de 2025
O desfecho veio em uma única manhã. Na véspera, em 17 de novembro de 2025, uma proposta de socorro foi protocolada, e havia ainda a expectativa, jamais concretizada, de aporte de fundos estrangeiros. Mas a situação era crítica: segundo Galípolo, o banco tinha apenas cerca de R$ 4 bilhões em caixa e enfrentava vencimentos que não conseguia honrar — em determinado momento, a instituição não pagava nem 15% dos resgates semanais.
Na manhã de 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras três frentes do grupo — a corretora de câmbio e valores, a Master de Investimento e a administradora de cartões. A autoridade citou “grave crise de liquidez” e “graves violações” às normas do Sistema Financeiro Nacional. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, e Daniel Vorcaro foi preso ao tentar deixar o país.
Os impactos: FGC, efeito dominó e investigações
A dimensão do caso tornou-se rapidamente evidente. O volume de depósitos elegíveis ao FGC ligados ao grupo ultrapassava R$ 50 bilhões, e estima-se que o fundo terá de arcar com mais de R$ 40 bilhões — o maior desembolso de sua história. Para recompor o caixa do FGC, mantido pelos próprios bancos, as grandes instituições do país poderão ser chamadas a aportar dezenas de bilhões de reais, o que reacendeu o debate sobre eventuais mudanças nas regras do fundo.
A liquidação do Master também provocou um efeito dominó: o Banco Central interveio em outras instituições ligadas ou próximas ao grupo. Em janeiro de 2026, foi decretada a liquidação da gestora Reag, que, segundo o BC, teria estruturado operações fraudulentas com o Master entre 2023 e 2024. A Operação Compliance Zero, por sua vez, avançou em várias fases ao longo de 2025 e 2026, investigando crimes como gestão fraudulenta, emissão de títulos sem lastro, manipulação de mercado, corrupção e lavagem de dinheiro. Entre os desdobramentos, a PF chegou a prender o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, suspeito de favorecer a negociação com o Master — fatos que ele e sua defesa têm contestado.
Um caso ainda em aberto
É fundamental frisar que a história do Banco Master continua sendo escrita. Daniel Vorcaro nega irregularidades e, até meados de 2026, negociava uma delação premiada com a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal — discutindo a devolução de bilhões de reais —, sem que houvesse condenação definitiva. A própria liquidação tornou-se objeto de disputa institucional, com inspeção do Tribunal de Contas da União e debates no Supremo Tribunal Federal sobre a velocidade e a forma de atuação do Banco Central, que defende ter agido dentro de suas atribuições legais.
O que parece consolidado é o lugar do episódio na história econômica do país: do modesto Banco Máxima ao colapso bilionário, o Master tornou-se o símbolo mais recente de um padrão antigo do sistema financeiro brasileiro — crescimento veloz, captação generosa demais para ser sustentável e uma fiscalização que corre atrás do prejuízo.
Perguntas frequentes
Quando o Banco Master foi fundado? A instituição tem origem em uma corretora dos anos 1970 que se tornou o Banco Máxima, autorizado a operar como banco em 1990. A marca Banco Master surgiu por volta de 2017-2018, após a chegada de Daniel Vorcaro, em 2016.
Por que o Banco Master foi liquidado? O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial em 18 de novembro de 2025, citando grave crise de liquidez e graves violações às normas do sistema financeiro. Investigações apontam emissão de títulos sem lastro e supervalorização de ativos.
Quem investe no Master perde o dinheiro? Aplicações elegíveis ao FGC são garantidas até R$ 250 mil por CPF e por instituição. Valores acima desse limite, ou produtos não cobertos pelo fundo, entram na fila do processo de liquidação, com ressarcimento incerto.
Qual o tamanho do rombo do Banco Master? As estimativas das autoridades apontam prejuízo superior a R$ 50 bilhões, com mais de R$ 40 bilhões a recair sobre o FGC — o maior desembolso da história do fundo.
O que foi a compra do Banco Master pelo BRB? Em março de 2025, o banco público BRB anunciou acordo para adquirir participação no Master, mas o Banco Central indeferiu a operação em setembro de 2025. O negócio passou a ser investigado como possível tentativa de mascarar a situação do banco.
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Este artigo foi elaborado com base em informações públicas do Banco Central do Brasil, do Senado Federal, da Polícia Federal, da Agência Brasil e da imprensa econômica nacional. Por se tratar de caso sob investigação, as acusações são atribuídas às respectivas fontes e os envolvidos são tratados conforme a presunção de inocência, com base nas informações disponíveis até a data de publicação.